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Plano de Trabalho



Plano de Trabalho dos Centros de Educação Infantil Indígena (CEIIs), vinculados aos Centros de Educação e Cultura Indígena (CECIs)

1. Eixos Temáticos

O Currículo dos Centros de Educação Infantil Indígena - CEIIs, vinculado ao CECIs é essencialmente indígena, como forma de assegurar a valorização da tradição e cultura Guarani. São desenvolvidas atividades que reforcem a cultura Guarani, respeitando o desejo da comunidade e o Referencial Curricular Nacional para as Escolas Indígenas – RCNEI (2005).

  • Estímulo ao uso da língua materna – Guarani, através das histórias e lendas contadas pelos mais velhos, reinterpretadas pelos educadores;
  • Diálogos, conversas entre adultos e crianças sobre as atividades tradicionais (roças, pesca, construção de casa, culinária, artesanato e mata - ka’aguy;
  • Cosmogonia – história sobre a estrutura do universo, a origem do mundo e do povo Guarani;
  • Brincadeiras, jogos, cantos, danças infantis tradicionais Guaranis, técnicas de lutas milenares que desenvolvem maior agilidade das crianças, conhecendo sua história e os instrumentos utilizados (Xondaro e Tangará);
  • Artesanato e artefatos de uso tradicional – contato com materiais para o artesanato com a devida preocupação com a preservação da matéria – prima. Confecção de artesanatos, onde são usados diversos materiais, como: madeira de árvores específicas, palha, embira, cipó, taquara, barro, cera de abelha, penas, sementes, etc. São desenvolvidos também, oficinas de artefatos próprios da cultura: arco e flecha, armadilhas, cestos, zarabatana, leques e outros, etc.;
  • Agricultura e Natureza – como é a relação com a mata, o respeito à natureza. Conhecimento do plantio de plantas tradicionais como o milho - avati, mandioca, erva-mate, etc. Cultivar horta com as plantas terapêuticas, medicinais e seus devidos usos;
  • Conhecimentos tradicionais sobre geografia e a natureza;
  • História e Religião – Palestras com os Pajés de outras aldeias. O uso do Pentyguá (cachimbo), as técnicas para sua construção. A técnica de construção das casas e da Opy (Casa de Reza). Histórias do povo Guarani e suas ancestralidades.
  • Noções de contar (somar, repartir, multiplicar);
  • Noções de informática – desenvolver uma etno-informática de acordo com a cultura Guarani;
  • Grafismo, desenhos, pinturas, dobraduras, grafias de palavras guaranis;
  • Culinária de alimentos tradicionais – Exemplos: arroz, feijão (para preparar o xopará), abóbora (andai), milho (Kaguijy -suco de milho- mbytá- quirela, mbojapé), farinha de trigo (xipá -pão), mandioca (mboju) etc.

São respeitado as diferenças individuais e ritmos variados de aprendizagem das crianças e os diversos níveis de comunicação.


2. Calendário Escolar

O Calendário e os horários de uso do CECIs são definidos exclusivamente pelas comunidades Guarani, situadas no município de São Paulo.

Na tradição Guarani – e para as etnias indígenas em geral – a passagem do tempo não é entendida como nós não-indígenas a entendemos, numa cronologia que possui um sentido linear, mensurado por meio de calendários, dias, meses, anos, séculos e milênios que se sucedem em direção a um futuro infinito.

Para os Guaranis o tempo é percebido de forma circular, por meio dos ciclos que se alternam, num movimento que configura um eterno retorno.

Estes ciclos estão intimamente associados aos ciclos da natureza.

Para entender a concepção de tempo Guarani é necessário compreendermos melhor sua concepção de natureza.

Para eles a natureza – como tudo que existe – resulta de um desdobramento da essência divina, integra o próprio “corpo” de ‘Nhanderu Ete’, o Primeiro Pai Verdadeiro, que ao desdobrar a si mesmo gerou tudo que existe.

A passagem do tempo é compreendida em dois ciclos: ‘Arapyau’ – tempo novo e ‘Araymã’ – tempo velho.

O ‘Arapyau’ corresponde aos tempos da primavera e do verão. Tempo de renovação da natureza, onde as plantas e os animais da floresta se renovam. Período para procriação. Tempo de reunião dos espíritos, de fortalecimento dos espíritos. Tempo apropriado para a realização dos grandes rituais religiosos que culminam no ‘Nhemongarai’, cerimônia (batizado) de nominação das crianças que nasceram naquele “ano” e ainda não receberam o nome-alma (em Guarani). Tempo para o cultivo de algumas espécies como o milho ‘avati’, considerado sagrado.

O ‘Araymã’ corresponde ao período em que a natureza envelhece, abrangendo o outono e o inverno. Tempo de recolhimento, em que os espíritos se dispersam. Neste período não se realizam rituais religiosos, exceto as rezas cotidianas. Tempo apropriado para a construção das casas, para a prática da caça, etc.

Assim pensar em um Calendário Escolar diferenciado, implica em considerar esta forma distinta de entendimento do tempo baseado nos ciclos da natureza, próprio da cultura Guarani.

Conforme entendimento da comunidade Guarani, o Calendário Escolar , segue o que já é de costume nas aldeias. As atividades escolares vão diminuindo no outono e no inverno, inclusive neste último são interrompidas para o período de férias. No período de primavera e verão as atividades são retomadas, sendo o mês agosto a preparação para o Ano Novo que acontece em setembro com o batismo da erva-mate. No mês de janeiro a atividade só será interrompida para a cerimônia (batismo) com nominação em Guarani, das crianças nascidas durante o “ano” anterior.


3. Níveis e Modalidade de Ensino

A modalidade de ensino é Educação Escolar Infantil Indígena, a faixa etária atendida é de 0 a 05 anos e onze meses de idade. Os agrupamentos são mistos, com crianças de várias idades, os irmãos mais velhos com os irmãos mais novos. As crianças de colo, bebês, são acompanhadas pelas mães. Em alguns momentos, as crianças são agrupadas em meninos e meninas para atividades específicas de cada gênero, como por exemplo, as danças tradicionais.


4. Organização do Cotidiano

Os CECIs/CEIIs desenvolvem metodologia própria da cultura milenar Guarani.

As atividades não são restritas as salas de aula, mas entendida de forma ampla, fazendo com que o aprendizado seja vivenciado, observado, experimentado, construído na prática do dia-a-dia, nos vários espaços da aldeia.

De acordo com a comunidade, pela manhã é servido o lanche, depois as crianças são encaminhadas para a casa de reza – Opy e somente depois deste momento, é que são desenvolvidas as atividades pedagógicas nos diversos espaços dos CECIs e da aldeia como um todo, pois na concepção Guarani, a aldeia se constituí num espaço educativo, onde toda a comunidade se empenha no cuidado uns dos outros, principalmente das crianças.